Não és tu. O problema nunca foste tu, que te tentas
convencer disto de todas as vezes mas apenas consegues acreditar na palavra de
todos que não tu. E esperas que um dia a mensagem passe por todos os circuitos
internos e consigas ter a certeza de que o problema não és tu.
Obsessão. Pelo fogo que observas, enquanto morre, como por
tudo na tua vida. Queres mais, sempre mais, mereces mais e lutas por mais mas
tudo parece tão relativo no meio do nada que tens! O teu fogo não morre, nunca
morre, somente se deixa esmorecer. Como aquela acha que continuar acesa apenas
para lembrar que um dia, ali, houve fogo. E o teu está vivo, a gritar, a dar
pontapés, a dizer-te que a loucura é a única coisa que algum dia vais ter
porque essa é só tua e é com ela que estás sozinha.
O problema és tu, que te deixas acreditar nisso porque tem
de haver uma razão, um motivo para não poderes ter o que queres. O quão egoísta
consegues ser para não perceber que nunca terás tudo, nem metade do que desejas?
Mas está ali, tu consegues ver, tu não consegues deixar de ver, nem queres, nem
te forças, não te ajudas. Para ti não está errado, para ti que não sabes de
nada, que te recusas a adivinhar o futuro porque é a sua incerteza que te dá a
esperança de que dias melhores virão. Para ti, que na absurdez de toda a
situação, no meio da teia de aranha, começas a questionar-te e a ponderar se
tudo isto não é só um sonho ou uma ilusão.
Não pode ser uma ilusão. O fogo queima, é com ele que ardes
e não consegues pensar em mais nada por mais que tentes. Mais nada. Não queres
mais nada? A não ser que seja feliz, por mais que te doa? E o que fazes tu,
onde fica a tua felicidade, na dos outros? Em ver a vida a passar lá fora como
se não fosse tua? Em pensares que talvez não sejas tu o problema? Ou em te convenceres
de que, como sempre, o que tu és, simplesmente ainda não é o suficiente?
Custa saber que não vai passar tão depressa como um simples
arranhão, que a marca vai ficar, que tudo o que é sentimento vai continuar e,
tu, vais continuar sem saber o que fazer a não ser olhar e sonhar. Como criança
que perdeu o balão e fica a vê-lo a partir e a pensar para onde irá. E que só
quer partir com ele. Para longe, para onde nada importe, nem a ânsia por aquilo
que nunca se teve.
É complicado ser honesta quando nem eu sei o que sinto, o que
penso ou o que fazer com este emaranhado de situações que, por mais que tente,
ainda não consegui processar. Por vezes acho que vou ficar louca por isso
mesmo, por simplesmente não saber tudo, não ter um plano definido, quando sei
que o único que assim o seria era a tentativa de esquecer. Mas não quero
esquecer, não te quero esquecer, assim como não quero deixar de sentir. Nunca
deixar de sentir. E vou seguindo, na esperança de que um dia tudo seja mais
fácil, para ti, para mim, quando nunca gostei dos caminhos mais fáceis. Gostava
de te dizer que isto me vai passar ao mesmo tempo em que sinto que isto só se
tem agravado, intensificado e que vai durar. Isto. A paixão, a amizade, o
carinho, o amor, eu sei lá bem o que é isto tudo junto. Eu só não sei se posso
dizer o que poderás querer ouvir. Se quiseres ou valer a pena ouvires. Queria
dizer-te tanta coisa, que nem sei bem o quê. Vou procurar-me à chuva. Pode ser
que (te) ache se me tentar encontrar.
God is in the rain.

