Sabes, eu vivo bem sem ti. Sem ti como sem qualquer outra pessoa. Não que não faça diferença a ausência da tua presença mas há sempre outro alguém, outra coisa que me distraia. Vivo bem sem ti. Mas nunca vivo completamente sem ti porque as minha memórias ressurgem no dia-a-dia e tu ocupas partes importantes delas. Nunca vivo sem ti e o viver resume-se, por veze,s a existir e existir todos o conseguimos fazer bem.
Por vezes sinto que não vivo, como se estivesse simplesmente sentada a uma janela a ver a vida a passar e de vez em quando vejo a tua cara na de pessoas que ocupam lugares que tu já ocupaste, o passado a tentar misturar-se com o presente para me lembrar o que foi um dia realmente viver. E ser feliz, porque o fui.
Vivo sem ti mas contigo dentro de mim, no meio de tantos e tantas outras que ocupam as minhas memórias. Por ora, no entanto, tu ocupas o centro das mesmas. Vivo no fundo sem mim, a quem deixei perdida num canto qualquer, quando me esqueci de tudo o que ser eu implicava, uma complexidade oca pois devia apenas deixar-me ser.
Ser e esquecer. Por breves momentos descartar o que já se foi como é tão fácil para tantos. Porém, descartar o que já foi é deixar-me a mim de parte, a mim a quem a memória consome, a mim a quem a memória alimenta, a mim que, por vezes, sinto que nada mais sou que memórias. Num mundo em que mesmo memórias partilhadas têm sempre perspectivas diferentes. Talvez por isso nunca tenha sabido o que achar de mim. Encontrei-me diversas vezes mas continuo sem me saber.
Acho que me encontrei fora de mim e talvez desta perspectiva me consiga finalmente saber.
inspired by He's more myself than I am. Whatever souls are made of, his and mine are the same.

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