
Diz-me o que pensas de mim e eu vou agir como se nada me afectasse por de trás desta fortaleza que envolve o meu dia-a-dia.
“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras. As palavras são pedras e o que nelas vive é o espírito que por elas passa” ― Vergílio Ferreira, Aparição


Rio-me com os dentes todos como se eles mostrassem a alma no reflexo do seu amarelo impuro, na extensão infinita dos lábios ou no esconder do superior. Rio-me com os dentes todos mas não sinto o meu sorriso que, por vezes, mesmo ao parecer natural é forçado e julgam-me feliz quando não o sou. Mas rio-me sempre com os dentes todos, não vá alguém achar que não os tenho. Porque se não me rir tudo é pior e explicações guardo-as para mim, assim como a certeza de para quem verdadeiramente sorrio.
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Olha através da máscara que é o meu rosto, o meu corpo, vê quem está cá dentro como se o que está por fora não significasse absolutamente nada. Talvez seja demais pedir que vejas ao invés de olhares. O mundo não foi feito para se ver, se o fizéssemos perdia metade da magia. Ou será que não? Qual é o problema em ver? Miopia, estrabismo, astigmatismo, só doenças e nenhuma delas pior que a falta de vontade.
Se olhasses talvez visses, talvez visses que por trás daqueles cabelos loiros ou castanhos ou pretos ou ruivos, por trás disso, não há nada. Por trás dos olhos tão bonitos que mudam consoante as luas e que parecem incapazes de produzir os rios que dos meus brotam não há nada também, não enxergas um resquício de alma porque a que procuras tem algo de incomum e de incomum, nesse tipo de pessoa nada reside. Por trás das modas, de tudo o que lhes tira a simpleza de ser e estar, por trás de tudo aquilo em que se tornam não há nada, e por trás do estranho há tanto, está tudo.
Escolhes a beleza em detrimento de algo verdadeiro, de algo incondicional mas queixas-te de que sentes falta de amor. Nem que seja a ti mesmo. Como se não soubesses desde o início que a beleza se vai e o incondicional é isso mesmo, fica mesmo que longe e enterrado e sem contacto contigo. O problema é que mesmo que exista, se estiver longe, não o encontras. E se encontrasses não o conseguias ver porque a embalagem não te apela e não há publicidade e todo o brilho dos produtos em série cega-te para aquela coisa desinteressante sem rótulo e amassada, simplesmente com defeito, que está à tua espera na prateleira de trás.
Mas não és tu. O problema não reside em ti que nem sabes que ele existe. Somos ensinados assim e, como não pensamos, não sabemos. Se nem tudo o que brilha é ouro então os provérbios populares são só isso, frases feitas que dizemos sem sentir, como tudo que fazemos nestes dias.

Todos temos um refúgio, para muitos os nossos quartos; nas nossas memórias talvez a nossa infância, com os seus momentos de felicidade pura e inocente.
A minha infância traz-me, por entre os doces e brincadeiras, aquele carrossel da feira popular, sempre o mesmo e intemporal, não interessa quanto tempo tenha passado, todos os carrosséis do género são igual, mesmo não o sendo. Lembro-me de onde gostava de me sentar, consoante o dia e estado de espírito: lembro-me dos cavalos para me sentir uma princesa em fuga, das chávenas para a sensação de perigo; cada um dos lugares distintos, naquele carrossel por onde tantos passaram e ainda passam.
Aos 22 anos, a criança já não anda no carrossel e torna-se então na diversão principal em tempos de aborrecimento, um carrossel da malta, igual a tantos outros apesar de diferente. A criança pensa agora no maquinista do carrossel, sempre a ver pessoas a chegar e a certa altura abandonar; nos momentos que não chegam para o gasto em dias desertos nos quais o carrossel pára.
Todos nós temos os nossos papéis: tu és a balança que pende sempre mais para o lado que mais te marca; tu és aquele texto gravado em pedra, de natureza tão certa e constante, para sempre igual a si mesmo mas tão dado a interpretações apesar do texto ser claro; tu és as aguarelas que enchem de cor os nossos dias, tão complexa nas diferentes combinações de tons e tão simples na tua essência primária; tu és a inconstância que nos vai ligando de diferentes maneiras, de palavras que não correspondem ao pensamento, numa ânsia pelo futuro que nunca mais chega mas que está bem, por enquanto, lá ao longe e, tu, apesar de igual tão diferente, és a calma e a razão, ambas subjugadas por vezes, ambas não claramente visíveis mas sempre constantes, numa presença de quem tudo já pensou e guardou e talvez não venha a partilhar. Eu sou o carrossel, onde todos vão marcando a sua presença e se divertindo das maneiras que vou permitindo, todos diferentes e todos deixando diferentes marcas. Por vezes, quando o carrossel pára ninguém percebe, no final de contas, ninguém imagina um carrossel como algo fechado para obras. Mas como qualquer comum carrossel é dos que me vão visitando que dependo para, de certa forma, sobreviver. Mesmo quando as marcas são desagradáveis. Mesmo quando o constante movimento se torna excessivo e abusivo e as roldanas, por vezes gastas, querem encravar e deitar todos os passageiros abaixo.
Um carrossel não fecha para obras. Não parte. Fica nas memórias de todos mesmo que no local mais recôndito das mesmas. Só para um dia, mais tarde, voltar a vir a constituir o refúgio de tempos passados. Porque embora os carrosséis sejam todos iguais, todos sabemos qual é nosso lugar no que nos pertence.
(Undertow - Warpaint)