Thursday, February 9, 2012

Com Defeito


Rio-me com os dentes todos como se eles mostrassem a alma no reflexo do seu amarelo impuro, na extensão infinita dos lábios ou no esconder do superior. Rio-me com os dentes todos mas não sinto o meu sorriso que, por vezes, mesmo ao parecer natural é forçado e julgam-me feliz quando não o sou. Mas rio-me sempre com os dentes todos, não vá alguém achar que não os tenho. Porque se não me rir tudo é pior e explicações guardo-as para mim, assim como a certeza de para quem verdadeiramente sorrio.

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Olha através da máscara que é o meu rosto, o meu corpo, vê quem está cá dentro como se o que está por fora não significasse absolutamente nada. Talvez seja demais pedir que vejas ao invés de olhares. O mundo não foi feito para se ver, se o fizéssemos perdia metade da magia. Ou será que não? Qual é o problema em ver? Miopia, estrabismo, astigmatismo, só doenças e nenhuma delas pior que a falta de vontade.

Se olhasses talvez visses, talvez visses que por trás daqueles cabelos loiros ou castanhos ou pretos ou ruivos, por trás disso, não há nada. Por trás dos olhos tão bonitos que mudam consoante as luas e que parecem incapazes de produzir os rios que dos meus brotam não há nada também, não enxergas um resquício de alma porque a que procuras tem algo de incomum e de incomum, nesse tipo de pessoa nada reside. Por trás das modas, de tudo o que lhes tira a simpleza de ser e estar, por trás de tudo aquilo em que se tornam não há nada, e por trás do estranho há tanto, está tudo.

Escolhes a beleza em detrimento de algo verdadeiro, de algo incondicional mas queixas-te de que sentes falta de amor. Nem que seja a ti mesmo. Como se não soubesses desde o início que a beleza se vai e o incondicional é isso mesmo, fica mesmo que longe e enterrado e sem contacto contigo. O problema é que mesmo que exista, se estiver longe, não o encontras. E se encontrasses não o conseguias ver porque a embalagem não te apela e não há publicidade e todo o brilho dos produtos em série cega-te para aquela coisa desinteressante sem rótulo e amassada, simplesmente com defeito, que está à tua espera na prateleira de trás.

Mas não és tu. O problema não reside em ti que nem sabes que ele existe. Somos ensinados assim e, como não pensamos, não sabemos. Se nem tudo o que brilha é ouro então os provérbios populares são só isso, frases feitas que dizemos sem sentir, como tudo que fazemos nestes dias.

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